Antes de prosseguir a fundo no tema proposto, acho de necessidade primordial entendermos e analisarmos alguns fatos recentes que podem ilustrar o reflexo que tais idéias tem causado em nossa sociedade, tais como:
- A aceitação e proliferação exacerbada do termo: "Bandido bom é bandido morto".
- O Apoio da população a atos como linchamentos de pessoas flagradas em delito.
- A comemoração da morte de pessoas envolvidas com política ou de posicionamento politico previamente declarado.
- Exaltação de torturadores por parte de representantes.
- Aprovação do porte de armas no congresso.
- A demonização de pensamentos com origens ideológicas opostas.
- A aclamação por pena morte.
- Redução da maioridade penal e etc...
Quando citados em uma lista, não é difícil perceber a brutalidade e a origem violenta que este conjunto de fatos representa. E não estou aqui para tentar censurar nenhuma forma de pensamento, uma vez dito que todos são livres para assumir qualquer postura ideológica e religiosa que bem entenderem.
Porém o que me intriga e o que me levou a escrever esse texto, é auto proclamação de pensadores adeptos a está ideologia como os famosos "Cidadãos de bem, que saem em defesa da pátria e da fé a qualquer custo." Seria cômico se não fosse trágico assumir que uma ideologia de tamanha violência e ignorância explicita seria por qualquer meio algum tipo de defesa aos valores éticos e cristãos de nossa sociedade. É baseado neste fato que proponho uma analise mais profunda para desmistificar as supostas boas intenções do suposto cidadão de bem sob o olhar e o entendimento de alguns trechos presentes na própria Bíblia que desvalidam tal forma de representatividade.
É fato relevante para o que proponho, ter em mente que a bíblia não contém a palavra de Deus diretamente, ela nos é transmitida através de um terceiro, sempre de modo humano em linguagem humana, não que eu pretenda humanizar a bíblia, mas mostrar como ela é inserida dentro de um contexto histórico da realidade humana. É necessário também entender que o processo da revelação se deu de forma gradativa, motivo pelo qual muitas vezes em Israel não podemos pretender a clareza revelada em Cristo, como instrui os padres da igreja católica e o próprio vaticano "O novo testamento é latente no antigo.", essa atitude hermenêutica é necessária para termos uma interpretação mais lógica e plausível das cenas de violência e brutalidade que alguns textos do antigo testamento parecem justificar como a vontade ou ordem de Deus, devemos compreende-las dentro da perspectiva do processo gradativo a qual a revelação se deu, foram admissíveis durante um certo período em um certo contexto histórico, mas inconcebíveis a partir de Cristo, onde se deu a revelação plena. Dito isso, vamos as ponderações previamente propostas:
- "Bandido bom, é bandido morto": Essa que ao meu ver é a mais fácil de todas as crenças conservadoras de ser desmistificada pela Bíblia, por conta da grande quantidade de material falando sobre o mesmo assunto, tendo em vista que a incidência de crimes era monstruosamente maior a 2000 anos atrás e a solução para quase tudo se dava na morte, pode ser simplesmente contradita com um dos 10 mandamentos, "Não matarás" é importante perceber a simplicidade do mandamento que o salva de qualquer forma de equivoco ou de interpretação paralela, uma simples negação e um verbo, é valido lembrar que não existe nenhum porém, ou nenhuma ressalva sobre a mesma passagem, não deixa nenhuma margem para uma suposta interpretação tal como "Não matarás a menos que seja roubado", ou "Não matarás a menos que haja um motivo qualquer", é simples e conciso porém tendo em vista que é o primeiro item a ser contradito aqui e por sinal um grande motivo de polemica entre todos, achei válido citar algumas outras passagens que reforçam a ideia. Temos então a famosa passagem da Perícope da Adúltera ( João 7:53 até João 8:1-11) Onde escribas e fariseus tentam guiar Jesus a uma armadilha, de forma que se o mesmo fosse a favor da condenação de Maria Madalena seria acusado de cruel e hipócrita, se Jesus escolhe-se a absolvição, além de fora-da-lei, seria acusado de ir contra as sagradas escrituras (os termos petralha, esquerdista e defensor de bandidos, ainda não tinham tal popularidade como nos dias de hoje , só uma pitadinha de humor pra descontrair rs). Eis então que Jesus, de forma brilhante, deixa todos parados, sem reação, sem argumentos e sem moral para tomar qualquer atitude, "Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra". A passagem é perfeita para a reflexão proposta! Nos remete a refletir do fundo de nossas almas perante um olhar severo e de forma humilde aceitar que estamos todos sujeitos a erros, como criações imperfeitas que lutam incessantemente para nos tornarmos seres humanos melhores, cada um dentro das falhas contidas em si mesmo geradas através de nossos próprios contextos, estamos sujeitos a errar, e como o próprio Cristo deixa bem claro, não temos o direito de julgar os erros cometidos pelo outro, uma vez que não fomos expostos as dificuldades do contexto de vida e vivencia experimentado pelo próximo. Vale lembrar também de outra passagem que por si só não requer tanta analogia pela forma simples e concisa na qual foi apresentada: "Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe. Se pecar contra você sete vezes no dia, e sete vezes voltar a você e disser: 'Estou arrependido', perdoe-lhe".(Lucas 17:3-4) .
- "O Apoio da população a atos como linchamentos de pessoas flagradas em delito." Bom, me sinto obrigado a voltar a citar novamente a passagem da Perícope da Adúltera, que por sinal se resume a basicamente a mesma atitude a qual tal parte da população apoia, afinal Maria Madalena estava prestes a ser apedrejada, recentemente todos tivemos o desprazer de assistir aquela cena triste onde um rapaz de camisa vermelha tenta impedir com que um menor de idade fosse linchado após ter cometido um assalto ( ou furto, não tem relevância para nosso propósito então não me aprofundei no acontecimento.) volto a frisar a armadilha montada pelos fariseus que muito se parece por sinal com o famoso e cansativo discurso conservador do "defensor de bandidos". Sempre que toco no assunto com os mesmos venho escutando a mesma ladainha do "Se você está falando isso é porque tem alguém próximo de você que é bandido ou está envolvido no crime". Não acho um argumento valido, porém como vem sendo utilizado com frequência, decidi aborda-lo mesmo contra minha vontade. Para jogarmos este argumento por terra, é necessário antes nos fazer uma pergunta, como cristãos, quem é esse "alguém próximo"? "De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar." (Atos dos apóstolos 17:26). Essa passagem nos ajuda a entender o conceito de próximo, se de um só todos fomos feitos, portanto de todos nós existe apenas um, de tal forma não só eu tenho pessoas próximas envolvidas no crime, mas todos nós. Um outro argumento frequentemente apresentado pelos nossos queridos defensores da moral e dos bons costumes é: "Você fala isso agora, quando a sua mãe for morta por um assassino quero ver ter pena". É um fato polemico tendo em vista que as pessoas que passaram pela mesma experiencia tem o direito de reagir a mesma da forma que lhe achar cabível, mas de alguma forma parece fugir a visão dos conservadores a possibilidade de existir alguém capaz de perdoar tais atos. Não me cabe aqui a o direito de expor as pessoas que passaram por tais situações sem a permissão das mesmas, portanto deixo uma sugestão de um documentário chamado Human, não me lembro em quais minutos exatamente é mostrado alguém que passou por tal situação, mas vale a pena assistir. E mais convido a todos para utilizar aquela ferramenta brilhante chamada Google, pois não é um fato isolado.
- "A comemoração da morte de pessoas envolvidas com política ou de posicionamento politico previamente declarado." Essa parte creio que não precise nem de muita reflexão a respeito, ao atirar seu ódio pelo próximo em direção a eternidade celebrando a maior das perdas (a do direito a vida) em qualquer circunstância está claramente implícita na passagem: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém afirmar: "Eu amo a Deus", mas odiar seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ele nos deu este mandamento: "Quem ama a Deus, ame também o seu irmão"".(João 4.19-21).
- "Exaltação de torturadores por parte de representantes." Bom, aqui é necessário se fazer uma interpretação mais profunda do tema, uma vez que um representante do povo se posiciona a favor de exaltar torturadores e incitar ódio contra grupos já por nós pré entendidos aqui mesmo como próximos, é necessário perceber que não se trata de uma opinião própria, mas sim de uma tentativa de desviar as pessoas dos valores contidos na própria bíblia, como vimos acima, a mesma diz que devemos amar o próximo como amamos a Deus, porém para o ser humano em seu contexto histórico, se faz de total necessidade para que possamos aprender com os nossos erros e acertos e com isso nos tornarmos uma sociedade melhor, reconhecer qualidades e defeitos uns nos outros, claro que amparados pela humildade de entender que somos todos humanos e detedores do pecado e não incitados pelo julgamento. Logo, temos de aprender a não binarizar o outro, como bom ou mau, certo ou errado, e sim aprender com os erros e acertos do mesmo para evoluirmos como sociedade através da contribuição ideológica que é possível se obter com bom senso e bom uso da história. Tendo isso em mente, nos cabe saber diferenciar a admiração por uma posição ideológica qualquer assumida por uma personalidade de atos condenáveis e abomináveis como o caso da tortura. Dizer que concorda com os princípios de alguma ideologia portanto, é totalmente diferente de concordar com os atos praticados pelo autor da mesma, tornando-se inconcebível o ato de dizer que "torturou pouco" , "deveria ter torturado a todos de uma vez", "fez um favor ao mundo"... citações essas frequentemente encontradas em discursos pró ditaduras. A ideologia e a conduta são coisas totalmente diferentes quando se diz respeito a um ser humano, temos de saber diferenciar quem exalta qual. "Recomendo, irmãos, que tomem cuidado com aqueles que causam divisões e põem obstáculos ao ensino que vocês têm recebido. Afastem-se deles. Pois essas pessoas não estão servindo a Cristo, nosso Senhor, mas a seus próprios apetites. Mediante palavras suaves e bajulação, enganam o coração dos ingênuos." (Romanos: 16:17-18).
- "Aprovação do porte de armas no congresso." Esse é um fato que apesar de polemico, não tem nenhuma consideração religiosa por parte da bíblia a ser feita, porém cabe a nós como seres pensantes uma simples dedução: Pra que armas são feitas? O único proposito de uma arma é matar, o que nos remete de volta ao tema do item 1, não matarás. "Mas então quer dizer que eu devo morrer pra evitar matar o próximo?" Sim, exatamente... a bíblia em momento nenhum tenta nos remeter a uma sensação de medo em relação a morte, pelo contrario, a bíblia nos incita a ter coragem de enfrentar qualquer caminho sabendo que Deus sempre estará conosco. "Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno. "(Mateus10:28) fica clara uma pergunta quando analisada a passagem a cima, quem é aquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno? "A alma que pecar, essa morrerá...a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este" (Ez. 18: 20) Provavelmente Mateus se refere a nós mesmos quando diz daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno, pois somente nós mesmos somos responsáveis por nossos próprios atos e portanto capazes de nos condenar.
- "A demonização de pensamentos com origens ideológicas opostas." Aqui sim temos uma questão interessante, hoje conseguimos diferenciar as pessoas quem pensam em ideologias opostas de nossos inimigos, pelo menos teoricamente, porém para entendermos a forma que este conceito possuía a 2000 anos atras é preciso fugir um pouco ao contexto que estamos acostumados a utilizar e tentar assumir uma forma de pensamento mais rustica dentro do contexto da época. "Se vocês ouvirem atentamente o que ele disser e fizerem tudo o que lhes ordeno, serei inimigo dos seus inimigos, e adversário dos seus adversários."( Êxodo 23:22). Logo, podemos concluir que a melhor forma segundo a bíblia para lhe dar com os adversários e inimigos, seria ouvi-los e tentar compreende-los, ao demonizarmos uma ideologia por completo, ou estamos sendo desonestos intelectualmente ou não estamos parando para ouvir nossos inimigos, tendo em vista que estamos no século XXI e nenhuma ideologia que não possua um lado a ser compreendido teria condição de ter se perpetuado até agora, não subestimemos os grandes pensadores que já passaram pela terra, mas saibamos reconhecer que o bem que está presente em nós também se faz presente no próximo, afinal como já foi dito neste mesmo texto, se de um só todos fomos feitos, portanto de todos nós existe apenas um, e ninguém é capaz de ser inteiramente bom ou mau.
- "A aclamação por pena morte." Mais uma vez nos deparamos com o não matarás, mas para não ficar repetitivo irei usar de uma outra passagem para desmistificar a ilusão de que possuímos o direito de decidir quando é justo ou não tirar o maior presente que Deus nos ofereceu, a vida. "Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: "Minha é a vingança; eu retribuirei", diz o Senhor. Ao contrário: "Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem."(Romanos 12:19-21) Não há sentido em vingar-se de um crime cometendo outro, claro que é fundamental que nós da sociedade moderna tenhamos sistemas efetivos para nos protegermos. Mas é preciso entender que o principio de justiça não tem base moral ligada a vingança. O preso não é preso como forma de punição, mas com intuito de proteger a sociedade de um cidadão que não está apto para viver em conjunto, e proteger o mesmo de continuar pecando, aumentando assim o tamanho de sua carga e divida por qualquer que seja o motivo, portanto interpretar o cárcere como uma punição é um equivoco.
- "Redução da Maioridade Penal." Bom e por fim, este que não é um caso que eu pretendia discutir. Neste caso não queria questionar com fatos bíblicos um sistema que o próprio homem moderno criou, apenas quero deixar claro a necessidade de que quando se tratam de jovens, o melhor caminho é investir na reabilitação dos mesmos, trancafia-los em meio a outros que vão os ensinar um caminho que não é o da palavra, mas sim o oposto é algo que ao meu ver pode ser percebido na passagem: " Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles."(Provérbios 22:6) É interessante notar como a preocupação com a educação e a formação dos jovens já se faz presente em um livro com mais de 2 mil anos de idade. Ao deixar que nossos jovens sejam instruídos para objetivos perversos, estaremos os condenando a um futuro de perversão, creio que julgar se a partir de 16 anos já é uma idade que tem responsabilidade pelos seus atos, de nada tem a ver com o foco desse tópico que é a formação, instrução, o aprendizado, mas sim uma questão de opinião pessoal na qual não pretendo me envolver, porém é valido lembrar que alguém que tem responsabilidade pelo seus crimes também deve ser considerado alguém com autoridade e sabedoria suficiente para expressar sua opinião de forma valida e a ser considerada.
Logo podemos concluir, que apesar dos esforços para se auto-denominar defensor dos bons costumes e da fé, o conservadorismo não necessariamente tem o apoio da religião quando considerada como forma de interpretação de estudos feitos por nós mesmos, fugindo assim dos feitos por instituições religiosas que possuem sempre interesses políticos e econômicos quando se pronunciam a respeito de algo oficialmente no nosso mundo globalizado.
Vale também lembrar o conceito de progressismo e de conservadorismo para uma ultima ressalva:
Conservadorismo: característica do que é conservador, averso a mudanças.
Progressismo: corrente de pensamento ou atitude mental dos que aceitam a evolução ou mudanças.
Logo seria um tanto quanto contraditório dizer que o conservadorismo em si é baseado ou fundamentado em valores religiosos do cristianismo, uma vez sabendo que Cristo foi enviado a terra exatamente para promover a evolução através de mudanças. Fica claro que Jesus foi o maior progressista que já viveu, pois foi o que mais promoveu mudanças.
Pensei ser valido fazer uma análise mais profunda para demonstrar a minha opinião de forma relevante para os que se baseiam em ensinamentos bíblicos para fomentar suas crenças politicas e condenar os que pensam de forma diferente, que existem outras formas de interpretar o atual contexto politico perante a palavra de Deus. Nós temos a capacidade de analisar e formar opiniões portanto não deveríamos reproduzir as de terceiros mas sim a nossa própria.